segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Festival da Banana?

Navegando recentemente pelos sites de Uiraúna vi o anúncio de um festival promovido pela Prefeitura e pelo Ministério do Turismo em louvor a produção local de bananas. No momento, achei muito estranho e até pensei que fosse engano, mas com uma análise aprofundada constatei a veracidade do tal festival das bananas.

É claro que o “susto” é normal para quem conhece Uiraúna e sabe o mínimo das nossas tradições. Somos, verdadeiramente, a terra de grandes músicos, o berço de grandes sacerdotes e a fonte donde nascem grandes médicos, advogados, políticos e engenheiros. Somos um chão rico, pois nós, uiraunenses, representamos uma gente forte, batalhadora, que faz jus a designação de sertanejos.

Evidentemente a atividade agropecuária não é mais a mesma como em décadas passadas, quando o algodão era a mola propulsora da economia e o grande atrativo de investimentos. Foi através da força algodoeira que a Caixa Econômica Federal, o Bradesco e o Paraiban pregaram suas bandeiras no município e fomentaram o setor de serviços. Através da ALGASA e da SAMBRA, a indústria deu seus primeiros passos. Infelizmente, a agricultura rudimentar não suportou a praga do bicudo e todo o sistema montado foi por água abaixo.

Depois do tempo áureo do algodão no município não houve outro ciclo agroeconômico que girasse as redes de produção tão efetivamente. A agricultura familiar passou a cumprir um papel importante no cultivo do feijão e do milho. Com a construção recente da Barragem da Capivara, a produção irrigada de coco na Fazenda Cabaços passou a ter grau de importância e garantiu uma série de empregos para a população.

Mesmo assim, o setor agrário, atualmente, não tem grande participação no PIB de Uiraúna. Enquanto o setor de serviços, que compreende o comércio, representa 83%, a indústria 13%, a agricultura abarca apenas 4% de todo produto interno bruto municipal segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas. Ainda, segundo o mesmo instituto, através do censo agropecuário de 2006, o município tem 19.932 hectares destinados a atividades agropecuárias. Segundo o censo, são produzidas anualmente em Uiraúna, 245 toneladas de feijão, 1.293 toneladas de milho, 1.634 toneladas de cana-de-açúcar e apenas 111 toneladas de banana. Essa última, cultivada em apenas 24 propriedades não dá mais que R$ 94.000,00 de lucro durante todo um ano, enquanto isso o feijão é produzido por 623 propriedades e o milho por 660, juntos injetam na economia local uma fração aproximada de R$ 701.000,00.
Comprovadamente não somos a terra da banana como muitos querem dizer. O município de São João do Rio do Peixe produz 554 toneladas de banana, Pombal produz 1.636 ton. e Sousa, a verdadeira capital sertaneja da banana, colhe anualmente 4.929 mil quilos desse fruto.

Não precisa uma grande investigação para chegar a conclusão que o Festival da Banana é uma invenção populista, sem nenhum embasamento técnico e feito por quem não conhece o mínimo das questões relevantes da nossa cidade. Bastava os promotores do festival darem uma olhada na bandeira municipal para perceberem a existência de dois ramos: um de milho e outro de algodão. Esses produtos representam verdadeiramente a nossa terra. Fazem parte da tradição agrária do nosso povo.

O pior de tudo está na própria programação do evento, que coincide com as tradicionais festas de emancipação. Não há, em todo o convite, qualquer atividade, seminário, palestra que incentive a produção e o cultivo de banana. Parece que as bananas só poderão ser vistas nos cartazes, pois a festa se restringe ao forró. Não que as bandas sejam ruins ou que a festa também seja, mas o dia da cidade não pode ser só festa. A política do “Pão e Circo” do Império Romano continua se repetindo, em Uiraúna ganha uma nova roupagem, tornando-se a política do “Bolo e da Banana”. O Bolo representa os famosos cafés da manhã promovidos pela Prefeitura que são enganosamente chamados de “Saúde em Ação”, o típico “programa” assistencialista, e a Banana é o pseudo-festival, um grande Circo montado para enganar o Ministério do Turismo.

Infelizmente, na atual administração, o assistencialismo venceu a cultura. A Revista Uiraúna, grande marco da nossa história, foi jogada no lixo, assim como toda a nossa cultura. O periódico era a marca maior da nossa terra, elogiada pelas matérias, pela qualidade da impressão, pelos grandes colunistas e pelo papel social cumprido na revitalização das nossas memórias.

Enfim, é triste como nossa terra tem sido tratada e como as políticas que privilegiam a enganação estão se sobressaindo em relação a história e a cultura local. O humorista estadunidense O. Henry criou a expressão “República das Bananas” para representar um país latino-americano ditatorial e instável, talvez essa alegoria de Henry seja a meta de uma certa mulher que queira também transformar a Terra dos Músicos e dos Sacerdotes em uma República das Bananas.

Tancredo Fernandes
João Pessoa, 29 de novembro de 2010

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Artigo no Jornal

Clique na imagem abaixo para ler o texto publicado no jornal do Centro de Ciências Jurídicas (CCJ) da Universidade Federal da Paraíba.




segunda-feira, 13 de setembro de 2010

DO TIO SAM PARA UIRAÚNA

No pós Segunda Guerra, o mundo mergulhou num processo de polarização de duas grandes potências antagônicas, os Estados Unidos e a União Soviética (URSS), que disputavam a hegemonia dos seus sistemas econômicos. Os profundos embates entre capitalismo e socialismo caracterizaram a Guerra Fria.

“Guerra improvável, paz impossível”, célebre frase do filósofo francês Raymond Aron tem grande valia quando se caracteriza esse período de disputa e profundo temor pela eclosão de uma nova guerra.

Inicialmente uma luta ideológica foi fundamentada na corrida armamentista que produziu maciçamente equipamentos militares e buscou proteger o território de ataques terroristas. Na corrida espacial em que figuras como a cadela Laika, o astronauta Iuri Gagarin e a missão Apollo 11 ficaram internacionalmente conhecidas, mesmo que hoje se discuta a veracidade desses feitos. Além da própria corrida expansionista que incentivou a adoção de novos modelos econômicos na busca de melhores condições sociais em países que as disparidades eram exacerbadas.

Assim nações capitalistas lideradas pelos EUA assumiram a política de conter o avanço socialista e rasgar a “cortina de ferro” do Leste Europeu, como se pode confirmar nas palavras do presidente estadunidense Harry Truman “dar apoio às pessoas livres que estão resistindo as tentativas de subjugações por minorias armadas ou pressões externas”. A partir da Doutrina Truman surgiu programas de ajuda aos países capitalistas como o Plano Marshall e o Plano Colombo.

O interesse pela América Latina nasceu a partir da revolução liderada por Che Guevara, e os irmãos Raúl e Fidel Castro em Cuba, implantando em solo americano um Estado socialista que antes foi uma espécie de protetorado informal estadunidense.
Pautado na Doutrina Truman, Cuba foi expulsa da OEA (Organização dos Estados Americanos), que temendo a expansão dos ideais da revolução na América começou a incentivar golpes de Estado e ajudá-los financeiramente no intuito de diminuir as desigualdades sociais de cada nação e paralelamente enfraquecer os discursos socialistas.

Em 1964 uma ditadura militar foi instaurada no Brasil com o apoio direto do governo dos Estados Unidos através da Operação Brother Sam, que consistia no envio de 100 toneladas de armas leves e munições, navios petroleiros com capacidade para 130 mil barris de combustível, uma esquadrilha de aviões de caça, um navio de transporte de helicópteros com tripulação e armamento completo, um porta-aviões classe Forrestal, seis Contratorpedeiros (navios de guerra), além de um navio de transporte de tropas, e 25 aviões C-135 para transporte de material bélico. Essa estrutura militar enviada além de garantir estabilidade as Forças Armadas brasileiras serviria para uma provável intervenção, caso o golpe não se efetivasse.

O mais interessante da influência norte-americana no golpe militar brasileiro foi publicado no The New York Times em 3 de março de 1964 com a seguinte manchete: “Os Estados Unidos não mais punirão as juntas militares por derrubarem governos democráticos na América Latina”. Atente bem, a Revolução Cubana, que também foi um golpe, deu-se em 26 de julho de 1959 e teve profunda repressão estadunidense. A notícia exposta revela o relativo controle do avanço comunista nas Américas e o apoio a golpes militares de base capitalista, como o brasileiro.

Além de efetivar Estados centralizados e capitalistas em toda a América era necessário criar políticas públicas de ajuda a esses países, onde a má distribuição de renda gerou profundas segregações sociais e econômicas. O ponta-pé para essa política foi dado pelo presidente Jonh Kennedy em 1961 quando propôs a criação da Aliança para o progresso.

Esse programa propunha uma cooperação econômica entre Norte e Sul da América e foi assinado numa conferência inter-americana em Punta del Este, Uruguai, onde foram traçadas metas, como o aumento anual de 2,5% da renda per capita e a eliminação do analfabetismo de adultos até os anos 70.

Os recursos que o Brasil recebeu da Aliança para o Progresso foram convertidos em programas de habitação, alfabetização e distribuição de alimentos.

Em Uiraúna, o Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização) foi um desses programas, criado pelo governo militar que propunha a alfabetização em massa de jovens e adultos, privilegiando a quantidade em detrimento da qualidade do ensino. Muitas vezes os alunos aprendiam somente a desenhar o seu nome. Os mais “avançados” Mobrais ensinavam habilidades básicas de leitura, escrita e contagem. Por isso, historicamente utiliza-se o termo mobral para alcunha de aletrados.

Dentro da estrutura do Programa da Aliança para o Progresso existia também o “Alimentos para a paz” (Foods for Peace). Esse programa visava, originalmente, prover alimentos norte-americanos para algumas regiões do Nordeste. Eles eram distribuídos por organizações sem finalidades lucrativas. Essas organizações não se limitavam simplesmente a entregar os alimentos, mas certificavam-se também se os gêneros chegavam ao destino pré-estabelecido. No município, a Igreja Católica era a responsável pela entrega do leite em pó, que vinha ou do porto do Natal ou do Recife, onde os navios Hope (Esperança) desembarcavam essas cargas. Como era geralmente o pároco quem distribuía à população, o produto foi apelidado de Leite do Padre e devido a sua boa qualidade o gênero era bastante disputado pela população.

Os “auxílios” norte-americanos serviram, na época, para fomentar nos brasileiros os ideais de liberdade e democracia que o american way of life proporcionava. Criando nas nossas cabeças que aquele sistema era o melhor, que eles eram os melhores e nós deveríamos ser eternamente gratos pelo pó que nos enviaram.


Tancredo Fernandes
Matéria publicada na 7ª Edição da Revista Uiraúna.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Nódoa de lama

Ser nódoa de lama
É ser a ovelha negra do prado
É amassar o engomado
É mudar a rotina
É viver a arte

Ser nódoa de lama
É viver no caminho errado
Talvez fazer o certo
Mas fazer, fazendo errado

Seremos nódoa de lama
Não seremos detergente.
Seremos nódoa de lama
Fazendo arte, transformando gente.


Tancredo Fernandes

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Fora da área de cobertura...

A lei que proíbe o uso de celular na escola deve ser mais debatida pela sociedade antes de sua aprovação. Discutir a real função desse aparelho no ambiente escolar é importantíssimo para pais, alunos e professores, principalmente quando são expostas às opiniões de cada ente da sociedade.

Várias leis são criadas em nosso país, mas sua aplicação é questionável quando levamos em conta sua eficácia social. Será que os alunos serão realmente punidos se utilizarem o celular na escola? O brocardo jurídico afirma dura lex, sed lex (a lei é dura, mas é lei). A regra se aprovada gerará um certo temor no início, mas aos poucos os estudantes reutilizarão seus aparelhos como se nada estivesse escrito, isso é o que juridicamente chamamos de costume contra legem (contra a lei), assim como os motociclistas não utilizam o capacete, descumprindo o Código de Trânsito vigente, os estudantes não respeitarão essa norma, que acumulará poeira nas estantes jurídicas.

O mais sensato nesse caso é promover discussões no ambiente escolar. As instituições de ensino devem oferecer recursos para inibir o uso de celulares, por exemplo, disponibilizando um telefone fixo para que pais e filhos mantenham contato durante as aulas. Os estudantes também precisam se conscientizar de que a sala de aula é um ambiente exclusivo para o estudo e que utilizar o telefone móvel para fins irrelevantes durante a explanação do conteúdo é condenável moralmente. Os pais devem agir também como disciplinadores limitando o uso e o manuseio do celular em ambientes impróprios como o colégio, a igreja e o cinema.

O mais importante é a conscientização dos envolvidos, pois querer impor uma regra que já nasce ineficaz dentro dos costumes sociais é brincar com a atividade legislativa. Primeiro mudaremos esses comportamentos para depois transformá-los em lei.

Tancredo Fernandes
João Pessoa, 21 de junho de 2010

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Xeer: o direito primitivo da Somália

Em recente seminário elaborado para a disciplina de História do Direito, estudei os mais diversos ordenamentos jurídicos (não todos) existentes na África. Esse continente arraigado por uma multiculturalidade histórica não podia ficar alheio na produção de sistemas jurídicos eficazes. Durante o processo de elaboração fiquei perplexo quando não encontrei nenhum estudo, em nossa vasta internet, na língua portuguesa sobre o secular Xeer. Minhas pesquisas foram baseadas em artigos ingleses e espanhóis.

Então, o trabalho que segue é mais uma contribuição para os que tem sede de saber.


O Xeer é um sistema jurídico que se originou no século VII d.C. no Chifre Africano, atual Somália. Os conceitos basilares que guiam suas decisões são verdadeiramente indígenas, pois mesmo influenciados por diversas culturas os vocábulos estrangeiros não foram anexados aos dialetos locais.


Com surgimento das primeiras tribos no Chifre Africano, os clãs não comungavam de um mesmo dialeto. Mesmo assim, tinham traços parecidos, pois compartilhavam de uma mesma forma de resolver os conflitos, o Xeer. Essas comunidades não aceitam a presença do Estado como elemento ordenativo, por isso são classificadas como sociedades acéfalas. Nesse sistema inexiste a prisão e a tributação, salvo as multas existentes para a compensação de crimes.


O direito consuetudinário, não escrito e costumeiro, é característico, além de uma aproximação das mais precisas com direito natural. Os vereditos para as regulações dos conflitos são dados nos tribunais (guuruti), que acontecem sob a copa de árvores, onde os anciãos de cada tribo são os juízes que buscam a conciliação através da compensação, não da punição como é típico do Direito Civil europeu.

Atualmente, com a formação do Estado da Somália, esse sistema jurídico está em pleno vigor em inúmeras comunidades desse país. Sua importância está expressa nas estatísticas que mostram que 90% dos litígios são resolvidos nos tribunais baseados no Xeer.


Tancredo Fernandes
João Pessoa, 3 de junho de 2010

Ação e reação

As agressões e os distúrbios comportamentais são cada vez mais comuns entre os alunos das escolas brasileiras. O bullying é um perigo para a boa convivência social. Ele surge com apelidos e termina geralmente em desastre.

É comum perceber nas instituições de ensino como o preconceito altera o comportamento daqueles que dele são vítimas. Muitas vezes essas pessoas são inibidas, de característica física diferenciada do padrão, ou são alvos da mera implicância de colegas, que se sentem bem em humilhar e mostrar que são superiores a qualquer um.

Os jovens que sofrem com o bullying tomam atitudes drásticas. Alguns se munem de uma carga de ódio e vingam-se daqueles que lhes provocaram dor.

O efeito social provocado por esses conflitos é dramático. Todavia a própria sociedade é suscetível a atitudes discriminatórias; a família acoberta e acolhe os agentes do bullying, além de encorajar o filho a revidar com brigas. Enquanto isso a escola não age efetivamente na prevenção dessas situações, até mesmo professores são preconceituosos e não agem em casos de desavença entre alunos

É necessário que o respeito pelo semelhante seja algo mais presente nas instituições de formação do caráter humano, visto que para a boa convivência a harmonia é imprescindível.


Tancredo Fernandes
João Pessoa, 3 de junho de 2010

quinta-feira, 6 de maio de 2010

YouTube – Uma revolução na internet

Considero a Internet o meio de comunicação mais eclético que existe na atualidade. Nela cabe de tudo, embora nem tudo seja de qualidade. Para um internauta a habilidade e a consciência do fazer são fundamentais para uma boa navegação. Pois nosso leme passa por inúmeras turbulências como o perigo iminente dos vírus, hackers e tantos outros perigos virtuais.


As inúmeras tecnologias que nos são fornecidas são excelentes para a facilitação dos afazeres e da nossa vida. Como era difícil fazer um trabalho sem o auxílio da Wikipédia. A comunicação entre amigos e parentes não era tão ágil e interativa antes do orkut, twitter, MSN e facebook. Considero hoje um dos mais importantes avanços a criação do YouTube não só por ser uma ferramenta para a visualização de vídeos como também por ser livre o seu acesso, isso facilita a integração, o conhecimento, a sociabilidade.

Nunca pensei que pudesse rir novamente com “Os Trapalhões” e com “Chapolim”, assistir peças de teatro do Sudeste como “Hermanoteu na terra de Godah”, trechos de filmes clássicos como “Tempos Modernos”, shows de Luiz Gonzaga e Mamonas Assassinas, debates políticos históricos entre Collor e Lula, as propagandas que marcaram época ou que serviram para defender ideais monarquistas, parlamentaristas no Plebiscito de 1993... É uma verdadeira nostalgia, uma volta ao passado no conforto de nossos lares.

Há também vídeos cômicos que revelam os improvisos e as situações hilariantes que a TV ao vivo nos proporciona como o sucesso da nutricionista Ruth Lemos com seu “sanduíche-íche”, as peripécias do bêbado Jeremias, os erros dos formais jornalistas ou dos câmeras e as entrevistas inusitadas e “irreverentes”.

Posso dizer ainda que é um ambiente de descobertas.Nem passava pela minha cabeça que Silvio Santos havia sido candidato a presidente da República em 1989 antes de ver seu programa político no YouTube.

Há também aqueles vídeos medíocres que não tem nenhuma função e que são feitos por anônimos que almejam alcançar o status de pseudo-celebridade. Outros, mesmo nessa linha, têm seu caráter humorístico como os vídeos da Gaga de Ilhéus, de Sônia (a mulher do YouTube), do Zina (Ronaldo!), do rapaz que tenta ler a passagem “Jesus é o jardineiro e as árvores somos nós” e se enrola dizendo “Jesus é o jardineiro e as árveres somos nozes”.

O sucesso do YouTube chegou a proporções tão grandes que empresas como a Rede Globo, MTV, Record possuem espaços reservados nesse ambiente, assim como órgãos governamentais como a Câmara dos Deputados, o Senado Federal e o Supremo Tribunal Federal. Esse último reserva na sua TV Justiça um programa para que o Ministro Gilmar Mendes responda questões enviadas por usuários do YouTube.

Enfim, como dito a princípio a internet é um lugar de escolhas, saber discernir o bom e o mau é questão de consciência. Devemos aproveitar as opções que nos são dadas para aprender mais sobre o mundo, conhecer fatos passados, compartilhar informações e rir. Não privo meu conhecimento apenas nos livros de Miguel Reale, Machado de Assis e Augusto dos Anjos, pois vou além e recomendo que todos “sigam os bons” como dizia Chapolin.

Tancredo Fernandes

João Pessoa, 6 de maio de 2010

sábado, 17 de abril de 2010

Claustro

Nas congelantes barras cruzadas
Sórdida lua quadrada
Dum pesadelo em fuga
Aceso, o claustro me suga.

Inconstante e insano
Perverso sol cigano
Queima meu sangue bandido
De alma vil, de corpo encardido

Sórdida lua quadrada
Veta os calos da mente
E libertas para valente

E ainda ser humano
Possa sol cigano
Fazer me vôo de sabiá



Tancredo Fernandes
João Pessoa, 5 de agosto de 2008

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Calouros

O mundo das fórmulas químicas, das equações matemáticas e dos esquemas biológicos martirizavam a nossa tão rigorosa rotina quando ainda éramos vestibulandos. Talvez a vocação para a área de humanas e a predileção por temas relacionados a Geografia e a História tranqüilizavam nossas mentes diante da frustração do vestibular e das cobranças de nossos pais. Entender nossos pensamentos e ideais era algo complicado, por isso escolher a carreira certa foi um processo, para muitos, difícil e que precisou de uma rigorosa malha fina (testes vocacionais, questionários...).

Além disso, a pressão psicológica e até mesmo o ambiente ao qual éramos submetidos a realizar as provas de vestibular problematizavam ainda mais nossa vida. Sem contar a sacies dos colegas para conferir o temido gabarito ou as incessantes dúvidas diante das questões mais complicadas. Quem não tem histórias sobre seu vestibular? Fiscais arrogantes, eloqüentes, efusivos ou loucos. Concorrentes desesperados, apressados, engraçados. Nossas angústias de zerar a redação ou o medo da complicadíssima prova de física.

O ser vestibulando é um ser complicado. Todavia o adjetivo que povoou a boca dos nossos professores durante o 3º ano é alterado instantaneamente quando as Coperves da vida publicam suas listas de aprovados, e lá, encontramos um novo caminho, uma nova denominação - somos universitários!

A alegria e o entusiasmo da aprovação são contagiantes. Amigos, parentes, colegas pulam conosco e comemoram nossa vitória através de foguetões, de churrascos... Um verdadeiro bacanal nordestino.

A apreensão pelo resultado torna-se festa, e depois da festa surge a responsabilidade. Reconhecer a importância de um curso universitário e entender nossa participação social pós conclusão são idéias que permeiam as nossas mentes.
Quando entramos na Universidade e os anjos celestes tocam suas liras e cornetas anunciando nossa chegada (experiência narrada por um professor de Literatura) nos deparamos com um mundo diferente. A assiduidade dos professores, o rigor das vestimentas não é mais realidade nessa nova etapa de vida.

No inicio os desconhecidos tornam aos poucos amigos. É natural a formação de grupos que compartilham dos mesmos ideais ou culturas. É certo que a confederação dos grupos é mais vantajosa para a harmonia dentro da sala de aula. Mas nem sempre isso ocorre.

O reconhecimento dos professores e as primeiras percepções são com certeza o alvo das primeiras conversas. Críticas sobre o polegar esquerdo do docente, a discordância de seus pensamentos, os primeiros assuntos abordados são exemplos dessas interações.

Convincentemente o trote é também uma forma do fera sociabilizar-se com o ambiente universitário, conhecer e trocar informações com os veteranos e quebrar o rigor e a disciplina típica da primeira semana de aula. Criticada por muitos, o trote é um ritual de passagem do mundo escolar para as vivências universitárias, sempre regada a brincadeiras como o mela-mela de tinta guache, farinha e ovo.

É comum também a expectativa pelas avaliações. Conhecer o estilo do professor e como ele age diante das mais diversas situações é curiosidade de diversos calouros. Distinguir o carrasco do ocioso também faz parte das primeiras experiências.

Ancorar nossos desejos no porto do Direito, certamente não foi fácil. Passar em uma universidade pública federal num curso que tem tradição e nome na Paraíba, muito menos. Todos nós tivemos dificuldades, problemas internos e externos, mas conseguimos superá-los diante da educação. Temos, então, como obrigação, por sermos futuros juristas, de mudar a cara de nosso país tornando o mais ético.

Tancredo Fernandes
João Pessoa, 16 de abril de 2010

terça-feira, 13 de abril de 2010

QUINTETO DA POUCA VERGONHA

NÃO SEI SE A CIÊNCIA
ESTÁ EM DECADÊNCIA
SÓ SEI
INOCÊNCIA NA CONVALESCÊNCIA
CIÊNCIA, ÊNCIA, CIA, A


Tancredo Fernandes

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Os animais, os escravos e as mulheres no Antigo Testamento

O Antigo Testamento representa a aliança do povo de Israel com Deus (Javé) e remonta a sociedade que antecedeu Jesus Cristo na Terra. Os 46 livros não só narram a história dessa comunidade como também evidencia os costumes, as regras e as leis que coordenavam suas vidas. A partir disso, podemos enfatizar o papel que animais, escravos e mulheres tinham.

A primeira referência que se faz aos animais está no Gênesis. Deus no quinto dia da criação do mundo fez surgir as mais diferentes espécies na Terra. As mesmas dominadas pelo homem, segundo desígnio divino.

Em Levítico, as oferendas a Javé, através de animais, eram fundamentadas em cerimônias de sacrifício. Caso o animal fosse grande como um bezerro era feito um corte em seu pescoço (imolação) para retirar todo seu sangue que era espalhado pelo altar. A vítima era esquartejada e depois queimada. Animais pequenos como cabritos e aves passavam por processo semelhante. Esses rituais serviam como oferendas e eram uma forma de obter o perdão de Javé por pecados sem consciência.

No Antigo Testamento, as Leis Mosaicas determinavam uma distinção entre animais puros e impuros. Havia uma classificação dos mesmos quanto seu habitat, animais como o camelo, o porco, a coruja, o coelho e o morcego figuravam na lista dos impuros.

Dentre as regras que coordenavam esse povo, a compra e a utilização de escravos também era regulamentada. Era proibido, por exemplo, tornar escravo qualquer filho de Israel (irmão), mesmo estando em situação de miséria. O escravo era uma propriedade hereditária e só eram comprados em nações vizinhas.

Já a mulher nessa sociedade tem uma participação submissa ao homem, a prova disso está na criação, quando Eva surge da costela de Adão. Por isso, sempre se aponta a liderança masculina no lar. As mulheres não participavam do serviço militar, não podiam ter mais de um marido e eram proibidas de ter relações sexuais durante a menstruação. Quando davam a luz a um menino, eram consideradas impuras durante sete dias. Caso o recém-nascido fosse menina o prazo se estendia para duas semanas.


Tancredo Fernandes
João Pessoa, 7 de abril de 2010

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Texto a partir de uma notícia

No cursinho de redação do Professor Chico Viana veio a proposta de elaborar um escrito a partir de uma notícia.

A notícia escolhida por mim foi a seguinte:


Uma mulher foi detida depois de usar seus próprios dentes como arma durante uma discussão com o namorado. Na briga em San Angelo, Aubrey Garcia mordeu o lábio de Antonio Zaragoza. Ela foi mandada para o centro de detenção e poderá sair se pagar fiança de US$ 30 mil. (Portal G1, 3 de maio de 2009)


E esta foi minha redação que está no site do professor Chico:

Devido ao grande número de assaltos a frigoríficos e supermercados, as mulheres texanas estão frequentando com maior regularidade seus ortodontistas. Isto se deve à proibição do porte e uso de armas por mulheres solteiras em estabelecimentos fornecedores de gêneros alimentícios. A lei, aprovada pelos membros da Assembléia Texana, foi baseada em estudos científicos que apontaram o instinto matador e selvagem das mulheres, principalmente quando sentem o odor de carne bovina.


As chamadas “cowgirls”, que representam a maioria da população, realmente se irritam com facilidade e possuem fortíssima atração por bois e vacas quando esses animais estão sangrando. Além disso sempre andam armadas, pois quando desejam algo sacam o revólver e roubam.


A lei provocou uma profunda modificação no comportamento delas. Agora escovam regularmente os dentes, tomam muito leite e vão mensalmente aos dentistas, pois usam os dentes como armas para os saques.


Mas os maiores prejudicados foram os namorados dessas “cowgirls”. Antes elas atiravam, esfaqueavam e lançavam objetos pontiagudos sobre eles, mas agora se tornaram máquinas mortíferas. Mordem até sangrar, pois sentem que a semelhança dos companheiros com os bovinos vai além dos chifres na cabeça.


Tancredo Fernandes

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Riqueza Nordestina

Bate meu coração mais forte quando ando pelo sertão paraibano. Vejo no esplendor do xique-xique e do mandacaru a forte marca do Nordeste, na exuberância do juazeiro e da algaroba a resistência do verde na triste sequidão, nas pedras, nas estradas, nas vielas, no sorriso banguelo do matuto e no saco de pão preso na trinca de cada porta a imagem mais certeira da riqueza nordestina.

Não há coisa melhor, quando se está no sertão, do que ouvir as galhas das árvores balançando anunciando a chegada de uma neblina ou o cheiro típico que chega no anteceder da chuva, no próprio e vulgar preparo carregado de trovões e relâmpagos.

Começando o salpicar da água são outras percepções. Vê-la descendo pela calha e a meninada tomando aquele banho de chuva, que antes também tomávamos, é de fazer brilhar os olhos de qualquer sertanejo.

Não há coisa melhor, quando se está no sertão, do que sentar à noite numa cadeira de balanço na calçada ou no próprio alpendre para ouvir o prosear das famílias, conversar sobre os acontecimentos do dia, rir de situações e momentos, saborear um doce de leite ou um sorvete, uma seriguela, um din-din... Esperar pelo Aracati, frente fria que refresca as noites nordestinas, até às 9 da noite, hora que bate o sono nos mais velhos.

Não há coisa melhor, quando se está no sertão, do que escutar o palavriado típico daqui. Nunca ouvi, em outros cantos, uma mãe ordenando o filho colocar a tramela na janela, alguém pedindo uma taiada de bolo, um avô mandando o neto acabar com o funaré, um irmão azunhar o outro, um albino sendo chamado de gazo, um açougueiro de machante, um gasguito de quixaba...

Sentir o nordeste nas palavras é mais forte do que vê-lo por imagens. Perceber e recordar são experiências mais ricas e nobres que encontrar uma botija no quintal.


Tancredo Fernandes
Uiraúna, 22 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Os Bruzundangas - Lima Barreto

Um excelente trecho da obra de Lima Barreto que revela uma faceta da sociedade brasileira que perdura desde sua publicação em 1923.


"A nobreza da Bruzundanga se divide em dois grandes ramos. Talqualmente como na França de outros tempos, em que havia a nobreza de Toga e a de Espada, na Bruzundanga existe a nobreza doutoral e uma outra que, por falta de nome mais adequado, eu chamarei de palpite.


A aristocracia doutoral é constituída pelos cidadãos formados nas escolas, chamadas superiores, que-são as de medicina, as de direito e as de engenharia. Há de parecer que não existe aí nenhuma nobreza; que os cidadãos que obtêm títulos em tais escolas vão exercer uma profissão como outra qualquer. É um engano. Em outro qualquer país, isto pode se dar; na Bruzundanga, não.


Lá, o cidadão que se asma de um título em uma das escolas citadas, obtém privilégios especiais, alguns constantes das leis e outros consignados nos costumes. O povo mesmo aceita esse estado de cousas e tem um respeito religioso pela sua nobreza de doutores. Uma pessoa da plebe nunca dirá que essa espécie de brâmane tem carta, diploma; dirá: tem pergaminho. Entretanto, o tal pergaminho é de um medíocre papel de Holanda.


As moças ricas não podem compreender o casamento senão com o doutor; e as pobres, quando alcançam um matrimônio dessa natureza, enchem de orgulho a família toda, os colaterais, e os afins. Não é raro ouvir alguém dizer com todo o orgulho:

-- Minha prima está casada com o doutor Bacabau.

Ele se julga também um pouco doutor. Joana d'Arc não enobreceu os parentes?


A formatura é dispendiosa e demorada, de modo que os pobres, inteiramente pobres, isto é, sem fortuna e relações, poucas vezes podem alcança-la.


Cousa curiosa! O que mete medo aos candidatos à nobreza doutoral, não são os exames da escola superior; são os exames preliminares, aqueles das matrículas que constituem o nosso curso secundário...


Em geral, apesar de serem lentos e demorados, os cursos são medíocres e não constituem para os aspirantes senão uma vigília de armas para serem armados cavaleiros.


O título -- doutor -- anteposto ao nome, tem na Bruzundanga o efeito do -- dom -- em terra de Espanha. Mesmo no Exército, ele soa em todo o seu prestígio nobiliárquico. Quando se está em face de um coronel com o curso de engenharia, o modo de tratá-lo é matéria para atrapalhações protocolares. Se só se o chama tout court – doutor Kamisão --, ele ficará zangado porque é coronel; se se o designa unicamente por coronel, ele julgará que o seu interlocutor não tem em grande consideração o seu título universitário-militar.


Os prudentes, quando se dirigem a tais pessoas, juntam os dous títulos, mas há ainda aí uma dificuldade na precedência deles, isto é, se se devem designar tais senhores por -- doutor coronel -- ou -- coronel doutor.


Está aí um problema que deve merecer acurado estudo do nosso sábio Mayrinck. Se o nosso grande especialista em cousas protocolares resolver o problema, muito ganhará a fama da inteligência brasileira.


Quanto aos costumes, é isto que se observa em relação à nobreza doutoral. Temos, agora, que ver no tocante às leis.


O nobre doutor tem prisão especial, mesmo em se tratando dos mais repugnantes crimes. Ele não pode ser preso como qualquer do povo. Os regulamentos rezam isto, apesar da Constituição, etc., etc.


Tendo crescido imensamente o número de doutores, eles, os seus pais, sogros, etc., trataram de reservar o maior número de lugares do Estado para eles. Capciosamente, os regulamentos da Bruzundanga vão conseguindo esse desideratum."



Lima Barreto, em "Os Bruzundangas".




*[WIKIPÉDIA] Bruzundanga é um país fictício onde o narrador conta sua passagem por essas "terras". Disserta sobre sua cultura, política e economia, criticando principalmente a "pseudo-erudição" desse povo. Mostra a pobreza, o racismo e a valorização de títulos que os ricos possuem, mesmo jazendo na ignorância. Percebe-se uma analogia entre a Bruzundanga e o Brasil da época, a República Velha, ferozmente criticada por esse autor.