segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Festival da Banana?

Navegando recentemente pelos sites de Uiraúna vi o anúncio de um festival promovido pela Prefeitura e pelo Ministério do Turismo em louvor a produção local de bananas. No momento, achei muito estranho e até pensei que fosse engano, mas com uma análise aprofundada constatei a veracidade do tal festival das bananas.

É claro que o “susto” é normal para quem conhece Uiraúna e sabe o mínimo das nossas tradições. Somos, verdadeiramente, a terra de grandes músicos, o berço de grandes sacerdotes e a fonte donde nascem grandes médicos, advogados, políticos e engenheiros. Somos um chão rico, pois nós, uiraunenses, representamos uma gente forte, batalhadora, que faz jus a designação de sertanejos.

Evidentemente a atividade agropecuária não é mais a mesma como em décadas passadas, quando o algodão era a mola propulsora da economia e o grande atrativo de investimentos. Foi através da força algodoeira que a Caixa Econômica Federal, o Bradesco e o Paraiban pregaram suas bandeiras no município e fomentaram o setor de serviços. Através da ALGASA e da SAMBRA, a indústria deu seus primeiros passos. Infelizmente, a agricultura rudimentar não suportou a praga do bicudo e todo o sistema montado foi por água abaixo.

Depois do tempo áureo do algodão no município não houve outro ciclo agroeconômico que girasse as redes de produção tão efetivamente. A agricultura familiar passou a cumprir um papel importante no cultivo do feijão e do milho. Com a construção recente da Barragem da Capivara, a produção irrigada de coco na Fazenda Cabaços passou a ter grau de importância e garantiu uma série de empregos para a população.

Mesmo assim, o setor agrário, atualmente, não tem grande participação no PIB de Uiraúna. Enquanto o setor de serviços, que compreende o comércio, representa 83%, a indústria 13%, a agricultura abarca apenas 4% de todo produto interno bruto municipal segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas. Ainda, segundo o mesmo instituto, através do censo agropecuário de 2006, o município tem 19.932 hectares destinados a atividades agropecuárias. Segundo o censo, são produzidas anualmente em Uiraúna, 245 toneladas de feijão, 1.293 toneladas de milho, 1.634 toneladas de cana-de-açúcar e apenas 111 toneladas de banana. Essa última, cultivada em apenas 24 propriedades não dá mais que R$ 94.000,00 de lucro durante todo um ano, enquanto isso o feijão é produzido por 623 propriedades e o milho por 660, juntos injetam na economia local uma fração aproximada de R$ 701.000,00.
Comprovadamente não somos a terra da banana como muitos querem dizer. O município de São João do Rio do Peixe produz 554 toneladas de banana, Pombal produz 1.636 ton. e Sousa, a verdadeira capital sertaneja da banana, colhe anualmente 4.929 mil quilos desse fruto.

Não precisa uma grande investigação para chegar a conclusão que o Festival da Banana é uma invenção populista, sem nenhum embasamento técnico e feito por quem não conhece o mínimo das questões relevantes da nossa cidade. Bastava os promotores do festival darem uma olhada na bandeira municipal para perceberem a existência de dois ramos: um de milho e outro de algodão. Esses produtos representam verdadeiramente a nossa terra. Fazem parte da tradição agrária do nosso povo.

O pior de tudo está na própria programação do evento, que coincide com as tradicionais festas de emancipação. Não há, em todo o convite, qualquer atividade, seminário, palestra que incentive a produção e o cultivo de banana. Parece que as bananas só poderão ser vistas nos cartazes, pois a festa se restringe ao forró. Não que as bandas sejam ruins ou que a festa também seja, mas o dia da cidade não pode ser só festa. A política do “Pão e Circo” do Império Romano continua se repetindo, em Uiraúna ganha uma nova roupagem, tornando-se a política do “Bolo e da Banana”. O Bolo representa os famosos cafés da manhã promovidos pela Prefeitura que são enganosamente chamados de “Saúde em Ação”, o típico “programa” assistencialista, e a Banana é o pseudo-festival, um grande Circo montado para enganar o Ministério do Turismo.

Infelizmente, na atual administração, o assistencialismo venceu a cultura. A Revista Uiraúna, grande marco da nossa história, foi jogada no lixo, assim como toda a nossa cultura. O periódico era a marca maior da nossa terra, elogiada pelas matérias, pela qualidade da impressão, pelos grandes colunistas e pelo papel social cumprido na revitalização das nossas memórias.

Enfim, é triste como nossa terra tem sido tratada e como as políticas que privilegiam a enganação estão se sobressaindo em relação a história e a cultura local. O humorista estadunidense O. Henry criou a expressão “República das Bananas” para representar um país latino-americano ditatorial e instável, talvez essa alegoria de Henry seja a meta de uma certa mulher que queira também transformar a Terra dos Músicos e dos Sacerdotes em uma República das Bananas.

Tancredo Fernandes
João Pessoa, 29 de novembro de 2010

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