sexta-feira, 16 de abril de 2010

Calouros

O mundo das fórmulas químicas, das equações matemáticas e dos esquemas biológicos martirizavam a nossa tão rigorosa rotina quando ainda éramos vestibulandos. Talvez a vocação para a área de humanas e a predileção por temas relacionados a Geografia e a História tranqüilizavam nossas mentes diante da frustração do vestibular e das cobranças de nossos pais. Entender nossos pensamentos e ideais era algo complicado, por isso escolher a carreira certa foi um processo, para muitos, difícil e que precisou de uma rigorosa malha fina (testes vocacionais, questionários...).

Além disso, a pressão psicológica e até mesmo o ambiente ao qual éramos submetidos a realizar as provas de vestibular problematizavam ainda mais nossa vida. Sem contar a sacies dos colegas para conferir o temido gabarito ou as incessantes dúvidas diante das questões mais complicadas. Quem não tem histórias sobre seu vestibular? Fiscais arrogantes, eloqüentes, efusivos ou loucos. Concorrentes desesperados, apressados, engraçados. Nossas angústias de zerar a redação ou o medo da complicadíssima prova de física.

O ser vestibulando é um ser complicado. Todavia o adjetivo que povoou a boca dos nossos professores durante o 3º ano é alterado instantaneamente quando as Coperves da vida publicam suas listas de aprovados, e lá, encontramos um novo caminho, uma nova denominação - somos universitários!

A alegria e o entusiasmo da aprovação são contagiantes. Amigos, parentes, colegas pulam conosco e comemoram nossa vitória através de foguetões, de churrascos... Um verdadeiro bacanal nordestino.

A apreensão pelo resultado torna-se festa, e depois da festa surge a responsabilidade. Reconhecer a importância de um curso universitário e entender nossa participação social pós conclusão são idéias que permeiam as nossas mentes.
Quando entramos na Universidade e os anjos celestes tocam suas liras e cornetas anunciando nossa chegada (experiência narrada por um professor de Literatura) nos deparamos com um mundo diferente. A assiduidade dos professores, o rigor das vestimentas não é mais realidade nessa nova etapa de vida.

No inicio os desconhecidos tornam aos poucos amigos. É natural a formação de grupos que compartilham dos mesmos ideais ou culturas. É certo que a confederação dos grupos é mais vantajosa para a harmonia dentro da sala de aula. Mas nem sempre isso ocorre.

O reconhecimento dos professores e as primeiras percepções são com certeza o alvo das primeiras conversas. Críticas sobre o polegar esquerdo do docente, a discordância de seus pensamentos, os primeiros assuntos abordados são exemplos dessas interações.

Convincentemente o trote é também uma forma do fera sociabilizar-se com o ambiente universitário, conhecer e trocar informações com os veteranos e quebrar o rigor e a disciplina típica da primeira semana de aula. Criticada por muitos, o trote é um ritual de passagem do mundo escolar para as vivências universitárias, sempre regada a brincadeiras como o mela-mela de tinta guache, farinha e ovo.

É comum também a expectativa pelas avaliações. Conhecer o estilo do professor e como ele age diante das mais diversas situações é curiosidade de diversos calouros. Distinguir o carrasco do ocioso também faz parte das primeiras experiências.

Ancorar nossos desejos no porto do Direito, certamente não foi fácil. Passar em uma universidade pública federal num curso que tem tradição e nome na Paraíba, muito menos. Todos nós tivemos dificuldades, problemas internos e externos, mas conseguimos superá-los diante da educação. Temos, então, como obrigação, por sermos futuros juristas, de mudar a cara de nosso país tornando o mais ético.

Tancredo Fernandes
João Pessoa, 16 de abril de 2010

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