No pós Segunda Guerra, o mundo mergulhou num processo de polarização de duas grandes potências antagônicas, os Estados Unidos e a União Soviética (URSS), que disputavam a hegemonia dos seus sistemas econômicos. Os profundos embates entre capitalismo e socialismo caracterizaram a Guerra Fria.“Guerra improvável, paz impossível”, célebre frase do filósofo francês Raymond Aron tem grande valia quando se caracteriza esse período de disputa e profundo temor pela eclosão de uma nova guerra.
Inicialmente uma luta ideológica foi fundamentada na corrida armamentista que produziu maciçamente equipamentos militares e buscou proteger o território de ataques terroristas. Na corrida espacial em que figuras como a cadela Laika, o astronauta Iuri Gagarin e a missão Apollo 11 ficaram internacionalmente conhecidas, mesmo que hoje se discuta a veracidade desses feitos. Além da própria corrida expansionista que incentivou a adoção de novos modelos econômicos na busca de melhores condições sociais em países que as disparidades eram exacerbadas.
Assim nações capitalistas lideradas pelos EUA assumiram a política de conter o avanço socialista e rasgar a “cortina de ferro” do Leste Europeu, como se pode confirmar nas palavras do presidente estadunidense Harry Truman “dar apoio às pessoas livres que estão resistindo as tentativas de subjugações por minorias armadas ou pressões externas”. A partir da Doutrina Truman surgiu programas de ajuda aos países capitalistas como o Plano Marshall e o Plano Colombo.
O interesse pela América Latina nasceu a partir da revolução liderada por Che Guevara, e os irmãos Raúl e Fidel Castro em Cuba, implantando em solo americano um Estado socialista que antes foi uma espécie de protetorado informal estadunidense.
Pautado na Doutrina Truman, Cuba foi expulsa da OEA (Organização dos Estados Americanos), que temendo a expansão dos ideais da revolução na América começou a incentivar golpes de Estado e ajudá-los financeiramente no intuito de diminuir as desigualdades sociais de cada nação e paralelamente enfraquecer os discursos socialistas.
Em 1964 uma ditadura militar foi instaurada no Brasil com o apoio direto do governo dos Estados Unidos através da Operação Brother Sam, que consistia no envio de 100 toneladas de armas leves e munições, navios petroleiros com capacidade para 130 mil barris de combustível, uma esquadrilha de aviões de caça, um navio de transporte de helicópteros com tripulação e armamento completo, um porta-aviões classe Forrestal, seis Contratorpedeiros (navios de guerra), além de um navio de transporte de tropas, e 25 aviões C-135 para transporte de material bélico. Essa estrutura militar enviada além de garantir estabilidade as Forças Armadas brasileiras serviria para uma provável intervenção, caso o golpe não se efetivasse.
O mais interessante da influência norte-americana no golpe militar brasileiro foi publicado no The New York Times em 3 de março de 1964 com a seguinte manchete: “Os Estados Unidos não mais punirão as juntas militares por derrubarem governos democráticos na América Latina”. Atente bem, a Revolução Cubana, que também foi um golpe, deu-se em 26 de julho de 1959 e teve profunda repressão estadunidense. A notícia exposta revela o relativo controle do avanço comunista nas Américas e o apoio a golpes militares de base capitalista, como o brasileiro.
Além de efetivar Estados centralizados e capitalistas em toda a América era necessário criar políticas públicas de ajuda a esses países, onde a má distribuição de renda gerou profundas segregações sociais e econômicas. O ponta-pé para essa política foi dado pelo presidente Jonh Kennedy em 1961 quando propôs a criação da Aliança para o progresso.
Esse programa propunha uma cooperação econômica entre Norte e Sul da América e foi assinado numa conferência inter-americana em Punta del Este, Uruguai, onde foram traçadas metas, como o aumento anual de 2,5% da renda per capita e a eliminação do analfabetismo de adultos até os anos 70.
Os recursos que o Brasil recebeu da Aliança para o Progresso foram convertidos em programas de habitação, alfabetização e distribuição de alimentos.
Em Uiraúna, o Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização) foi um desses programas, criado pelo governo militar que propunha a alfabetização em massa de jovens e adultos, privilegiando a quantidade em detrimento da qualidade do ensino. Muitas vezes os alunos aprendiam somente a desenhar o seu nome. Os mais “avançados” Mobrais ensinavam habilidades básicas de leitura, escrita e contagem. Por isso, historicamente utiliza-se o termo mobral para alcunha de aletrados.
Dentro da estrutura do Programa da Aliança para o Progresso existia também o “Alimentos para a paz” (Foods for Peace). Esse programa visava, originalmente, prover alimentos norte-americanos para algumas regiões do Nordeste. Eles eram distribuídos por organizações sem finalidades lucrativas. Essas organizações não se limitavam simplesmente a entregar os alimentos, mas certificavam-se também se os gêneros chegavam ao destino pré-estabelecido. No município, a Igreja Católica era a responsável pela entrega do leite em pó, que vinha ou do porto do Natal ou do Recife, onde os navios Hope (Esperança) desembarcavam essas cargas. Como era geralmente o pároco quem distribuía à população, o produto foi apelidado de Leite do Padre e devido a sua boa qualidade o gênero era bastante disputado pela população.
Os “auxílios” norte-americanos serviram, na época, para fomentar nos brasileiros os ideais de liberdade e democracia que o american way of life proporcionava. Criando nas nossas cabeças que aquele sistema era o melhor, que eles eram os melhores e nós deveríamos ser eternamente gratos pelo pó que nos enviaram.
Tancredo Fernandes
Matéria publicada na 7ª Edição da Revista Uiraúna.
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