segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Riqueza Nordestina

Bate meu coração mais forte quando ando pelo sertão paraibano. Vejo no esplendor do xique-xique e do mandacaru a forte marca do Nordeste, na exuberância do juazeiro e da algaroba a resistência do verde na triste sequidão, nas pedras, nas estradas, nas vielas, no sorriso banguelo do matuto e no saco de pão preso na trinca de cada porta a imagem mais certeira da riqueza nordestina.

Não há coisa melhor, quando se está no sertão, do que ouvir as galhas das árvores balançando anunciando a chegada de uma neblina ou o cheiro típico que chega no anteceder da chuva, no próprio e vulgar preparo carregado de trovões e relâmpagos.

Começando o salpicar da água são outras percepções. Vê-la descendo pela calha e a meninada tomando aquele banho de chuva, que antes também tomávamos, é de fazer brilhar os olhos de qualquer sertanejo.

Não há coisa melhor, quando se está no sertão, do que sentar à noite numa cadeira de balanço na calçada ou no próprio alpendre para ouvir o prosear das famílias, conversar sobre os acontecimentos do dia, rir de situações e momentos, saborear um doce de leite ou um sorvete, uma seriguela, um din-din... Esperar pelo Aracati, frente fria que refresca as noites nordestinas, até às 9 da noite, hora que bate o sono nos mais velhos.

Não há coisa melhor, quando se está no sertão, do que escutar o palavriado típico daqui. Nunca ouvi, em outros cantos, uma mãe ordenando o filho colocar a tramela na janela, alguém pedindo uma taiada de bolo, um avô mandando o neto acabar com o funaré, um irmão azunhar o outro, um albino sendo chamado de gazo, um açougueiro de machante, um gasguito de quixaba...

Sentir o nordeste nas palavras é mais forte do que vê-lo por imagens. Perceber e recordar são experiências mais ricas e nobres que encontrar uma botija no quintal.


Tancredo Fernandes
Uiraúna, 22 de fevereiro de 2010

2 comentários:

  1. Oi Tancredo, sou Uiraunense também, que mora em Fortaleza. Gostaria de saber se você tem informações sobre a Quixaba, principalmente sobre Hermínio Vieira das Chagas, meu bisavô. Obrigado.

    ResponderExcluir
  2. Tancredo, aqui é o Florencio Queiroz, meu email é florencioq at gmail.com
    Obrigado.

    ResponderExcluir